Entrevista para a revista eletrônica TIC Educação

Tecnologia na escolaEste final de semana recebi por email algumas questões para uma matéria que será escrita para a revista eletrônica TIC Educação que trata do uso de tecnologias na educação.

Atualizado: [matéria disponível aqui]

A matéria em questão estará abordando a introdução da informática no ambiente escola. Vou registrar abaixo minhas respostas…

1 – Qual a melhor forma de introduzir a informática no ambiente escolar? O que deve ser analisado?
Humm, começamos com uma grande pergunta!

Acredito que um bom começo seria se  gestores e governantes fizessem essa sua pergunta aos professores, alunos e comunidade escolar, ANTES de enviar os “pacotes prontos” para as escolas. Observe que aqui não me limito apenas à informática, mas sim, a TODAS as tecnologias disponíveis.

Infelizmente a prática comum no Brasil é a de envio de soluções tecnológicas para as escolas, sem nenhum critério ou avaliação prévia. Como conseqüência, estas não refletem as necessidades ou opiniões dos principais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, nossos alunos e educadores.

É necessário pensar em uma formação continuada que prepare os docentes a reconhecerem nas tecnologias existentes, bem como nas que podem ser adquiridas, possibilidades pedagógicas para a aprendizagem e inclusão social em nossas escolas. Este seria um bom começo.

Diria que a melhor forma de introduzir a informática, bem como as demais tecnologias no ambiente escolar, seria construir uma política educacional sólida, com objetivos traçados em comum acordo com a escola.

2 – Qual a importância da utilização da informática como instrumento de aprendizagem e sua ação no meio social?
Posso responder com outras questões?

Afinal, o que define os conteúdos que devem compor o currículo das escolas? Não seriam os conhecimentos adquiridos pela humanidade ao longo de toda sua existência sem os quais não teríamos evoluído tanto? Conhecimentos estes,  que devem ser garantidos na aprendizagem de nossos alunos? E, por acaso, a utilização dos recursos tecnológicos e da mídia, de modo geral, não se encontram inseridos nesta gama de conhecimentos?


Neste sentido, não podemos desconsiderar da grade de conhecimentos que acreditamos serem importantes para a formação de um cidadão crítico e autônomo,  assuntos como: a influência da mídia sobre a opinião pública, as diferentes formas de comunicação e distribuição de informação propiciadas pela Internet, as comunidades de aprendizagem, o movimento de construção de uma cultura livre, os novos tipos de negócio, etc.

Como, nos dias atuais, podemos simplesmente desconsiderar dos nossos currículos os avanços tecnológicos e culturais que estamos passando? Com certeza a falta de acesso as tecnologias de informação e comunicação podem aumentar ainda mais a exclusão social já existente.

3 – Antes era necessário justificar a introdução da Informática na escola. Hoje já existe consenso quanto à sua importância. Qual a necessidade hoje de introduzir a informática na grade curricular?
Não acredito que a informática deva ser pensada como disciplina específica na grade curricular das nossas escolas de ensino fundamental. Ensinar como utilizar planilhas eletrônicas, editores de texto, linguagens de programação, etc, estão mais relacionados a um curso técnico. Se pensasse em uma disciplina proporia uma discussão sobre Tecnologia e sociedade.

Porém, ao desconsiderar a necessidade de uma disciplina específica de informática, acredito (e muito) na necessidade da utilização de recursos tecnológicos para o ensino das atuais disciplinas. Hoje um professor de qualquer área não precisa ser um expert em informática para encontrar na internet sites, vídeos, imagens e tantos outros recursos que podem favorecer e potencializar a aprendizagem de determinados conteúdos de sua disciplina.

4 – É importante que o professor possa refletir sobre essa nova realidade, repensar sua prática e construir novas formas de ação. Assim, qual o maior desafio para o esse profissional?
Penso que o professor possui muitos desafios e entre eles destaco 3:

1) O primeiro seria um compromisso pessoal. Trata-se de assumir sua posição de educador e compreender que utilizar as tecnologias em suas aulas não deve ser encarado nem como “movimento pedagógico hi-tech” (entrar em sala de aula com controle remoto e microfones nas mãos e continuar reproduzindo as práticas de séculos passados) nem tão pouco imaginar que estes recursos serão a salvação de todos os problemas de aprendizagem dos alunos. Há de se encontrar um equilíbrio entre utilização e possibilidades reais de mudanças na aprendizagem a partir do uso destas ferramentas. Mas para isso é preciso ultrapassar o senso comum que muitas vezes dita os rumos das discussões sobre tecnologia na educação, é preciso leitura e estudo sobre o assunto. Os professores precisam descobrir que existem teóricos comprometidos que discutem a tecnologia há algum tempo, propondo reflexões e inclusive, discutindo possibilidades de uso.

2) O segundo desafio é lutar por uma política educacional que garanta a valorização dos profissionais da educação, a reflexão, opinião e acompanhamento da sociedade nos programas de governo (seja municipal, estadual ou federal) e principalmente que possibilite a CONTINUIDADE dos projetos que chegam às escolas.

3) Como terceiro (mas não último), diria que seria lutar para que em tais projetos tivéssemos menos marketing e mais compromisso. Propiciar infra-estrutura tecnológica adequada aos espaços escolares, computadores com acesso a internet com banda larga, garantia de manutenção e atualização dos equipamentos adquiridos. Tornando assim as salas de aula espaços emancipatórios, que ampliem as conexões de alunos e educadores com o mundo.

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